terça-feira, 30 de agosto de 2011

E o deles?


As luzes da rua inteira haviam se apagado. Eu estava um pouco sonolenta com você naquela cama, quase de cabeça pra baixo, olhando pro teto mesmo sem enxergar nada. E você insistia em acender aquela  luz do celular só pra me olhar... Você sempre, sempre mesmo, quer saber o que eu estou fazendo naquela posição um pouco estranha, com o sangue descendo pra cabeça. As vezes a gente precisa deixar o sangue fluir por ali, também. Sentir o 'coração batendo' em outras partes.

A questão é que primeiro discutiamos sobre eu nunca ter visto um esquilo e sobre como a natureza é linda e perfeita. E você disse que nós somos tão ou mais animais do que os próprios animais. Aquela nossa velha habilidade de mudar de assunto do nada. Me disse que os golfinhos fazem sexo por prazer. Chegamos ao assunto porque eu afirmava que os animais não sentem amor. Eles sentem apenas respeito ou, sei lá, qualquer coisa parecida. Companheirismo, talvez. Não sei se animais sentem respeito. Mas paixão, pra mim, era coisa de 'ser' humano. Amor é só uma palavra usada para dar nome à consideração que um casal de idosos sentem um pelo outro depois de viver anos de dedicação. Palavra bonita, admito.


Tô até agora sem saber exatamente sobre o que é o amor.

Não to dizendo que eu não sinta ou nunca senti porque eu, de fato, sempre dei aos meu sentimentos o nome 'amor'. Mas e paixão, amor? E paixão? Você achou um pouco estranho e engraçado eu dizer que paixão só existe porque existe um 'pinto', e que ciúmes só existe porque existe um 'pinto' e que desejo é coisa que existe porque existe um 'pinto'.  É que eu não costumo soprar essas palavras meio escrotas por aí, mas no momento essa me pareceu apropriada. Não encontrei outra melhor pra descrever paixão naquele exato instante. Eu não acho que eu esteja errada e tenho pensado muito nisso... Em quando um daqueles casais de velhinhos morrem juntos. Aquele desejo carnal que existia aos 25 anos já não é o mesmo e resta a tal da consideração pela dedicação de anos. É com esse tipo de história que a sociedade resume um 'amor verdadeiro'.

A verdade é que isso me assusta um pouco. Eu, no auge dos meus 18 anos, consigo ter medo de ficar velha todas as vezes que vejo pessoas velhas. Isso não é assustador? Não digo a respeito do fato de ficar velho. Assustador mesmo é esse meu medo idiota. Mas eu não te contei desse medo naquele dia. Naquele dia, o que eu lembro mesmo foi você ter dito que eu estava futilizando o amor quando eu soltei que achava essa outra coisa estranha dentre tantas outras que eu acho estranha. Eu questionara sobre como as pessoas sofrem por amor. A gente se ilude, desilude, chora, se descabela e tem gente que até mata em nome dele. E a gente tem tudo. A gente tem estudo, a gente tem comida, a gente tem teto, a gente tem família. E a gente mata.

Eu questionava isso achando triste a vida daqueles que nada possuem, achando que por morarem na rua e implorarem por um pouco de comida, eles não tem espaço pra pensar em amor e sonhar com amor, não tem espaço pra se iludir com esse tal aí enquanto os estômagos gritam desesperadamente. E o meu grita de amor. E o deles gritam de fome.

Daí você usou como exemplo um casal que vive em frente ao prédio que você trabalha. Eles não tem nenhum bem material. Eles têm um ao outro. Eles dividem o dia-a-dia, a rotina, as desgraças, a comida... dividem com os cães. Eles dividem um sentimento em comum. Lembro que você disse que são eles, pobres de tudo (quase tudo), que entendem de verdade o sentido do amor, que sentem verdadeira e intensamente. Porque nós, que temos vida relativamente fácil, não sabemos dar o merecido valor. Foi por isso que eu banalizei o amor? Como eu consigo fazer essas coisas?

Você tem tanta razão, eu sei disso. Você sempre tem. Eu que sou a louca que faz perguntas estranhas e chega sempre as conclusões mais loucas e estranhas ainda. Devo ser mesmo um pouco fútil, desfazendo do sentimento mais belo, querendo tirar a única felicidade e a única coisa que um ser humano pode sentir mesmo sem ter posse de nada. 


E o meu estômago continua gritando de amor... Mas e o deles?

Nenhum comentário:

Postar um comentário