quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O peso do mundo

É quando a vida perde o sentido que eu me lembro do quanto você dava sentido a ela. Era como se você pegasse o meu mundo com suas mãos e o chacoalhasse. Era essa a sensação quando eu acordava com você ao meu lado, despertava com os acordes do seu violão ou mesmo com essa sua mania chata de me abraçar enquanto estou babando no travesseiro.

No dia em que você partiu por aquela porta pela última vez e me perguntou se ainda havia alguma coisa sua por lá… Imaginei aquele meu mundo tão pequenininho, perdido pela galáxia. Ou o que eu queria mesmo: que você carregasse esse mundo por todas essas ruas que você ainda ha de trilhar. Porque o meu mundo era tudo o que ainda lhe restava naquela casa.

Eu desejei, realmente, fechar todas as janelas e não deixar uma fresta sequer por onde fosse possível essa fuga. Mas você tinha a chave da porta. Sempre teve. E agora eu teria que reaprender a conviver com as noites solitárias e abafadas de primavera. Eu nunca mais escutaria o barulho da fechadura anunciando como som de clarinete a sua chegada.

E pra tentar me convencer de que você realmente se foi, é só eu me ver nesse mundinho tão vazio de você. Tão vazio das suas teorias loucas. Tão vazio dos seus sorrisos, das suas músicas. Com tanto espaço de sobra. Lembrar, consequentemente, da última chacoalhada. Aquele dia em que você pegou no meu braço com um gesto um pouco bruto.

Desceu brutalmente as escadas como se atirasse o meu mundinho medíocre lá de cima. Ele rolou, rolou, rolou, girou, eu girei, nós giramos… Degrau por degrau.

Aconteceu como sempre dizem: que o mundo dá mesmo voltas. O meu deu várias… Não chacoalha mais, adimito. Mas continua girando ladeiras e degraus abaixo.

Afinal, é sempre o tombo que nos impulsa a levantar.

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