quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Mim.

Parei. Por cinco minutos. Fechei os olhos e, num espasmo almático, velejei por todos os caminhos tortuosos da vida. Lembrando do que fui, incessantemente na busca do que eu sou. Um ser. Um verbo inútil, que nada faz. Sem significado, sem explicação, sem resposta. Enfim, daqueles bem vagabundos que pra nada servem. Perguntar é um verbo, pois não? E substantivo, toda a palavra que designa ser. Talvez eu esteja oscilando. De verbo a substantivo. Pois sim. Sou eu uma pergunta. E reduzida a quase nada, como uma pergunta sem resposta, sem solução, sem sentido, sem coerência, sem fundamento, ou talvez, apenas tentando aceitar o fato que me fora proposto: Ser. Ser o que? Um substantivo, talvez? Para transformar uma palavra de outra classe gramatical em um substantivo, basta precedê-lo de um artigo, pronome ou numeral. O Eu. Eis-me então uma pergunta. Uma pergunta escrita um milhão de vezes, esmagada entre linhas.  Esperando resposta, talvez. Vontade de ter uma borracha bem grande. Vontade de comprar duzentas mil borrachas. Um milhão de borrachas. Gasta-las completamente. Sumir com um sopro. Assim como se assopram os resquícios da borracha já usada.  Sumir, sumir, sumir. Desaparecer. Evaporar.  Passou-me toda a vida diante dos olhos em cinco minutos. E a vida passou nesses cinco minutos passados. Passou-se sobre a vida, a borracha. Esvaiu-se. Apagou-se. Desenhei dois olhos na esperança desesperada de enxergar qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Tendo avistado uma janela aberta frente a um oceano, abaixei-me para apreciar a vista. Afoguei-me. É que me esqueci de dar-me braços. Pernas para nadar. Tendo avistado estrelas que brilhavam no céu, me achei no direito de tocá-las. Alçar vôo. Mas quem disse que asas eu possuía? Raiva. Sentimento de frustração, motivado por aborrecimento, injustiça ou rejeição sofridas. Frustração. Uma emoção que ocorre nas situações onde algo obstrui o alcance de um almejo pessoal. Enfim. Quis todas aquelas duzentas mil ou um milhão de borrachas, numa tentativa frustrada de apagar as estrelas. Talvez soprar todo o pó restante do céu. Um canudinho. Encher-me do oceano. E afogar-me-ei. E afogar-te-ei. 

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